Erótico, Pornográfico, Imoral , Devasso ou Indefinido

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A arte como um todo, numa busca ampla de significados, e de atrair a atenção, passa  por definições que por um momento não satisfazem plenamente a busca de sentidos e de sensações. Outro dia numa discussão com amigos, uns diziam que Marquês de Sade não é erótico nem pornográfico, somente imoral e pretencioso. Outros defendiam que Erotismo requer cenas leves, descrições ambíguas,etc.. Naquele momento, com receio de ser impreciso, não concordei com uns nem com outros, mas como leitor ávido de romances, contos, crônicas eróticas, passei a elaborar, claro que baseado em precedentes de peso, um breve resumo sobre as diferenças entre erotismo e pornografia, e qual é o papel da moralidade dentro deste contexto, sem que com isso, necessitasse recorrer a divagações filosóficas, para poder ficar só na conversa de bar, resolver por ali mesmo.

Eis que num primeiro momento lembro que erotismo morfologicamente falando provém de Eros, deus do amor, e pornografia, provém de pornos, que tem a ver com prostituição. Donde redunda que Erótico é um termo que se aplica a definição da arte que expressa situações amorosas estritamente. Pornográfico, porém, já estaria ligado apenas ao sexo como coisa, como consumo. Porém, por um outro viés, entendo como uma descrição erótica (dentro de literatura, principalmente) aquela que indique a necessidade corporal latente, conjugada com o afeto mútuo dos indivíduos, conduzindo a ações e reações individuais e correspondendo a anseios fortes e interiores, narrados não de forma mecânica, mas sim de forma a estimular a imaginação do leitor a criar para si próprio sua identificação com o texto. Por outro lado, pornografia, é quando vem tudo pronto, a descrição mínima e sumária de atos sexuais ou libidinosos, pura e simples, existente à toneladas em revistinhas de sacanagem, sites, e outros.

Passa a ser um problema analisar a obra do Marques de Sade, partindo daí. 120 Dias de Sodoma, seria um livro inequivocadamente pornográfico, se (note bem este se) não fossem as pregações ideológicas contidas no texto, e as indagações acerca a natureza humana acabam ecoando profundamente no leitor, mais que as descrições cruas de todo tipo de torpezas e crueldades. Aliás, até as cenas de sexo descritas, servem mais para reflexão do que para excitação. Imoral? Desnudar a alma humana é imoral? Imorais são os que criam os padrões de moral. Na minha opinião Sade passa a partir daí a ser um cientista da natureza humana, e um dos melhores. Depois dele vieram outros, como Appolinaire, dentro do gênero de texto aberto, sem pudor, mas sem receio algum coloco como um dos melhores narradores eróticos D.H.Lawrence, e é claro seu romance mais célebre, O Amante de Lady Chaterly como uma dos grandes narrativas eróticas, por seu trabalho com a imaginação, fazendo com que cenas comuns passem ser inapelavelmente sensuais apenas pela imaginação dos sentimentos de um e de outro personagem.

Mas a literatura com temática erótica, hoje, chafurda em lamaçais profundos. Li, muito bem recomendado, 100 escovadas antes de ir para a cama, disseram que é um dos melhores relatos eróticos dos dias atuais. É uma pena, se isso for verdade, o erotismo já era. Em 100 escovadas…, a autora diz que vivenciou tudo que escreveu, e ainda coloca sua foto (linda) na contracapa para que já na livraria o leitor se sinta lúbrico. Armadilha pueril, porém , não culpo a autora nem a editora, há a necessidade de vender, entendo. E a leitura é fácil, diria até gostosa, porém se alguém quer ficar excitado, isto dura pouco, e o livro termina, como se não tivesse nem começado, pois não deixa a menor reflexão, nem o mínimo que se exigiria, um constrangimento por mexer no diário de uma garota de 18 anos.  E para matar de uma vez o livro, uma cena descrita, copia descaradamente outra cena do livro A História de O de Pauline Reage. Outro livro que apesar de ter sido bem escrito e ser bem bom de ler, contém apelações descartáveis é A Amadora de Ana Ferreira, onde se comete o despautério de compará-la a Henry Miller e Bukowski numa clara estratégia de buscar identificação com o público masculino descolado. Estes dois últimos escritores, aliás, merecedores de uma análise à parte. Chantal Dalmass com seu Todas as Serpentes do Paraíso se aproxima mais de Philip Roth do que qualquer outro escritor, porém com muita personalidade cria contos que ora encantam com sutil erotismo, ora decepcionam pela vulgaridade. Porém Dalmass talvez saiba o que está fazendo, pois ao final de seu livro só fica a impressão de satisfação. Tony Bentley construiu um pequeno manual para a mulher que deseja ser sodomizada, que encanta pela expressividade, mas em poucas páginas sua espontaneidade acaba por cansar e se tornar vulgar. Trata-se de um livro de bom apelo, acho que indicado mais para mulheres. Também merece destaque o livro A Amêndoa de Nedjma, que descreve mais do que atos sexuais, relações de amor, enfim. Padece um pouco de erotismo, mas tem seu valor por se livrar do caminho fácil para relatar uma boa história. Por falar em caminho fácil e futilidade, Bruna Surfistinha é o que há em relato pornográfico com sutilidade. Merece um comentário à parte.

Bom, na literatura o tema do erotismo é componente importante, e vem sendo explorado assiduamente pelas editoras, em alguns casos com objetivo unicamente mercadológico. Há casos de boa literatura, mas sou da opinião de que se deve conhecer os clássicos primeiramente, como O Jardim Perfumado, Justine, A História de O, Teresa Filósofa, Decamerão e os ícones modernos como Philip Roth, Henry Miller e Anais Ninn para se poder ter idéia da coerência da produção contemporânea.

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